Tem uma sensação que a gente conhece mas não sabe nomear direito. Você entra num lugar, ouve um som, vê uma imagem, e bate uma saudade de algo que você nunca viveu. Não é déjà vu exatamente. É mais estranho que isso. É sentir falta de um passado que talvez nunca tenha acontecido, ou de um futuro que ficou pelo caminho.
Essa sensação virou tema de álbum. O projeto se chama hyperstisound, formado pela dupla Hayyim e Andrea, e o primeiro disco deles nasce bem no meio dessa zona cinzenta entre memória, ficção e tecnologia.
A história dos dois começa em 2007, dentro de um ambiente que não tem nada a ver com pista de dança ou set de DJ. Eles se conheceram estudando música de concerto contemporânea, um universo de partituras complexas, festivais acadêmicos e um vocabulário técnico que assusta quem está de fora. Foi ali, entre espectralismo e serialismo, que a parceria artística começou.
De onde vem esse tipo de música
Para entender o hyperstisound vale explicar rapidinho de onde vêm essas técnicas. O espectralismo é uma corrente da composição que nasceu na França nos anos 1970, ligada a nomes como Gérard Grisey e Tristan Murail. A ideia central é tratar o som pelo seu espectro sonoro, pela análise das frequências que compõem um timbre, e construir a música a partir disso, quase como um cientista estudando a luz através de um prisma.
O serialismo é outra tradição, mais antiga, que organiza elementos musicais (altura, duração, dinâmica) em séries pré-definidas, seguindo uma lógica quase matemática de composição. E tem ainda a técnica de colagem, ou montage, que junta materiais sonoros de origens diferentes num mesmo tecido musical.
Essas ferramentas a gente vê em boa parte da produção do IRCAM, instituto de pesquisa em Paris ligado ao Centre Pompidou, fundado por Pierre Boulez. É um dos poucos lugares do mundo onde ciência do som e composição andam lado a lado, com softwares e tecnologias desenvolvidos internamente para pesquisa acústica. Hayyim e Andrea tiveram contato direto com esse universo num congresso do instituto, ainda no começo da parceria, e boa parte do vocabulário técnico do primeiro álbum do hyperstisound vem dali.
Quando a música acadêmica esbarra na cultura pop
A pergunta que fica é óbvia: como alguém sai de um ambiente tão fechado, tão ligado à pesquisa, e chega numa linguagem pop?

Segundo os dois, o problema nunca foi a música de concerto em si, mas o território dela. “O meio da música de concerto contemporânea está muito associado ao ambiente acadêmico, a festivais e encontros, mas ainda é muito focado no conhecimento científico”, explica Hayyim. A ideia era fazer essa mesma música ecoar em outros espaços, sem perder a sofisticação técnica.
Andrea completa com uma imagem simples: às vezes é bom que as pessoas escutem a música sem um olhar de pesquisa, com um drink na mão, curtindo o momento sem precisar decifrar nada.
Essa frase resume bem o projeto inteiro. O hyperstisound trabalha com um processo de composição rigoroso, quase de laboratório, mas a intenção não é criar um quebra-cabeça para a plateia resolver. Cada faixa do álbum parte de uma frequência fundamental específica, e a partir dela a dupla constrói a série harmônica que sustenta toda a composição. Some a isso horários fixos para gravar, produzir e mixar, quase um protocolo. E ainda assim, o resultado que eles buscam é emocional, não analítico.
Existe uma contradição nisso?
Dá pra achar estranho um processo tão controlado gerar algo espontâneo. Os dois já pensaram nisso. Andrea lembra que antes trabalhavam no freestyle, fazendo tudo de forma intuitiva, e quiseram testar um caminho oposto. O resultado, segundo ela, foi ter mais tempo livre pra viver, ver filme, ler, e voltar pro estúdio com mais material de verdade pra trabalhar. Hayyim vai na mesma linha e cita as biografias de grandes compositores e músicos: muita gente com processos rígidos de trabalho produziu obras que soam completamente orgânicas.
O nome que carrega um conceito inteiro
“hyperstisound” não é um nome aleatório. Ele remete a um conceito conhecido como hyperstição, cunhado nos anos 1990 pelo CCRU (Cybernetic Culture Research Unit), coletivo de teóricos ligado à Universidade de Warwick que misturou filosofia, ficção científica e teoria cultural de um jeito que acabou influenciando parte da cena eletrônica britânica. A ideia de hyperstição é a de uma ficção que se torna real pelo simples fato de circular e ser acreditada, um loop entre imaginação coletiva e realidade material.
Faz sentido, então, que Hayyim descreva o nome do projeto como algo que já vem “com uma tonelada de bagagem cultural“. Pergunta e ele mesmo responde, meio de brincadeira, que o nome funciona quase como um SEO natural pro que eles fazem artisticamente. Quem entende a referência já sabe, de cara, que ali tem camadas de filosofia, e crítica cultural, não só som.
Andrea reforça que a música é só a porta de entrada. “Nosso projeto não foi pensado para ser apenas musical, mas a música é o mensageiro, é o hyperlink.” A frase explica bem o método: você escuta uma faixa e, se quiser, pode puxar o fio até um território bem maior de referências.
Nostalgia por um passado que ninguém viveu
Um dos temas centrais do disco é justamente essa sensação inicial, a saudade de algo que nunca existiu. Hayyim conta que sentiu isso pela primeira vez assistindo à série The Langoliers, baseada em conto de Stephen King, sem saber explicar até hoje de onde vinha aquela sensação.
Andrea nota uma coincidência curiosa: pouco antes do lançamento do álbum, o filme Backrooms trouxe o mesmo tipo de sensação para um público bem maior, com gente relatando reações parecidas nas redes. Ninguém do hyperstisound sabia que o filme ia sair. Foi mais um sinal de que aquele imaginário, o dos espaços liminares, dos ambientes que parecem familiares mas não são, já estava circulando no ar antes mesmo de virar tendência.
Hayyim resume o raciocínio sem grandes pretensões: a música pop de um modo geral gira sempre em torno dos mesmos temas, amor, saúde mental, sexualidade, sucesso. Não tem nada de errado nisso, mas sobra espaço pra outras histórias.
Onde essa sonoridade se encaixa no mapa da música eletrônica
Vale abrir um parêntese aqui pra situar o ouvinte que não é tão familiarizado com o vocabulário da música eletrônica experimental.
Desde os anos 1990, um conjunto de artistas ligados ao selo inglês Warp Records ajudou a consolidar o que ficou conhecido como IDM, sigla para Intelligent Dance Music, um rótulo que a própria cena sempre tratou com desconfiança por soar meio pretensioso, mas que pegou mesmo assim. Nomes como Aphex Twin, Autechre, Squarepusher e Boards of Canada construíram um repertório onde a batida eletrônica dança de patamar diferente, alienígena, com camadas de textura e ruído que fogem do formato mais direto do techno ou da house.
Autechre, em particular, é conhecido por levar a produção quase pro campo da programação pura, usando linguagens como Max/MSP para gerar estruturas sonoras que mudam a cada execução, um território que se aproxima da música algorítmica e da música generativa. Do outro lado do Atlântico e do Canal da Mancha, o selo alemão Raster-Noton (hoje Raster Media) desenvolveu uma estética mais minimalista e digital, onde o glitch, aquele erro sonoro transformado em material composicional, virou linguagem central.
O glitch, aliás, é um bom exemplo de como a música eletrônica experimental trata o erro técnico como matéria-prima criativa. Um clique de CD pulando, uma falha de processamento digital, um artefato de compressão, tudo isso pode virar textura rítmica. O breakcore segue caminho parecido, mas com um pé no caos: batidas quebradas, samples acelerados até a distorção, uma agressividade que remete tanto ao jungle quanto ao noise. Já o ambient caminha na direção oposta, construindo paisagens sonoras estáticas ou em transformação lenta, pensadas mais para envolver o espaço do que criar tensão rítmica.
O que une esses subgêneros, no fim das contas, é uma relação próxima com o design de som e o processamento digital de sinal, o famoso DSP. É a mesma lógica que orienta boa parte da pesquisa acadêmica em música eletroacústica, incluindo o trabalho feito em centros como o IRCAM. Não é coincidência que tantos compositores formados em música de concerto contemporânea tenham, em algum momento, migrado ou dialogado com esse universo mais experimental da eletrônica. A fronteira entre a sala de concerto e o estúdio de produção eletrônica ficou bem mais porosa nas últimas três décadas.
É nesse cruzamento que o trabalho do hyperstisound faz sentido. O processo de composição descrito por Hayyim e Andrea, com frequência fundamental, série harmônica e colagem, dialoga diretamente com ferramentas e conceitos que também aparecem na música eletrônica experimental e na arte sonora contemporânea. A diferença é que, em vez de manter esse vocabulário restrito a um público especializado, o projeto tenta fazer essa linguagem circular num contexto mais pop, mais próximo do ouvinte casual.
Isso faz do hyperstisound um projeto de IDM?
Não necessariamente, e nenhum dos dois parece interessado em colar esse rótulo no próprio trabalho. Andrea inclusive desconfia de etiquetas: “esse rótulo de música experimental serve mais para identificar um subnicho do que para descrever algo sonoro específico.” A observação é justa. Termos como IDM, experimental eletrônico ou sound design funcionam melhor como pontos de referência pro ouvinte do que como categorias fechadas. Servem para dizer “se você gosta disso, talvez goste daquilo“, não para definir uma identidade fixa.
O que esperar de quem escuta pela primeira vez
Depois de todo esse processo técnico, chega a hora de soltar a obra no mundo. E aqui os dois parecem bem tranquilos com perder o controle sobre o que a música vira depois de lançada.
Andrea fala sobre isso com naturalidade, citando o fenômeno do conteúdo gerado pelo usuário, o UGC: a partir do momento em que alguém escuta a obra, ela já não pertence mais só à dupla. Sobre o futuro, a dupla comenta que o próximo álbum vai ser uma hyperstição do que estiverem construindo a partir de agora, uma ficção que, ao circular, cria a própria realidade.
Uma última pergunta: por que isso importa agora
Vale se perguntar por que um projeto assim aparece justamente agora. Talvez porque vivemos um momento em que a linha entre música acadêmica, eletrônica experimental e cultura pop nunca esteve tão borrada. A internet também deu à música um segundo canal de circulação: o das teorias, dos memes, das análises amadoras que viram parte do próprio significado da obra.
O hyperstisound parece nascer já pensando nesse ecossistema de recepção, mesmo sem usar essa palavra. A música funciona como ponto de partida. O resto, teorias, referências, conexões, nostalgia por futuros que não vieram, fica por conta de quem escuta e decide puxar o fio.
E talvez seja exatamente aí que mora a proposta do disco: não explicar a sensação de nostalgia por algo que nunca existiu, mas simplesmente provocar essa sensação de novo, em quem estiver disposto a escutar com atenção.
O primeiro single sound memory of a future that has not happened yet será lançado dia 30 de julho em todas as plataformas de streaming. Já o álbum completo our chosen beliefs about the future can retroactively form and shape our present realities vai ao ar dia 03 de Setembro.
Link para ouvir o primeiro single – https://orcd.co/soundmemory
Link para pre-save do álbum – https://orcd.co/hyperstisoundalbum
Info e redes sociais – https://www.hyperstisound.art/biolink
Fotos por M. Munoz
