Recuperações judiciais em alta e crédito rural em risco
O agronegócio brasileiro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, um salto de 56,4% em relação ao ano anterior, marcando o recorde da série histórica, segundo dados da Serasa Experian. No primeiro trimestre de 2026, o número já superou em 21,9% o registrado no mesmo período de 2025, sinalizando um agravamento contínuo da fragilidade financeira do setor.
Em paralelo, o cenário de crédito rural apresenta forte pressão sobre os produtores. Um levantamento do BTG Pactual, com base em informações do Banco Central, indica que em julho de 2026 havia R$ 207,4 bilhões em operações desfavoráveis – atraso, inadimplência, prorrogação ou renegociação – representando 23,5% de uma carteira nacional de R$ 881,6 bilhões.
Visão do secretário Geraldo Melo Filho
Durante a reunião do Conselho do Agronegócio (AC/Agro) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada nesta segunda-feira (28), o secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Geraldo Melo Filho, destacou que o principal problema não reside na capacidade produtiva, mas no custo de financiamento. “O juro que o produtor paga não se decide na lavoura. É o preço de um país que gasta mais do que arrecada e que cobra essa conta de quem está tentando produzir”, afirmou.
Segundo Melo Filho, o agronegócio paulista tem resistido ao cenário graças à diversificação das cadeias produtivas. Em 2024, o setor gerou PIB de R$ 657,6 bilhões, representando 18,9% do PIB paulista, 24% do agronegócio brasileiro e 40% das exportações do estado. O secretário ressaltou a necessidade de regras claras, segurança jurídica e previsibilidade, especialmente em relação ao seguro rural, cuja cobertura foi praticamente zerada nos últimos anos.
Defesa de Cesário Ramalho e o papel do seguro rural
O coordenador do Conselho do Agro da ACSP, Cesário Ramalho, enfatizou a importância de fortalecer os mecanismos de proteção financeira. “Não pode o agronegócio brasileiro não ter seguro. Aqui nós estamos para resolver a dívida. O país não pode isso. O agricultor não pode sofrer essa humilhação. Tem que recorrer a renegociação de dívida, o juro é elevado, o governo não tem dinheiro e vai tirar dinheiro da saúde ou da escola. Tá errado”, declarou.
Diversificação e exportação
São Paulo é o segundo maior exportador do agronegócio brasileiro, atrás de Mato Grosso. Entre janeiro e agosto de 2026, o estado vendeu US$ 17,79 bilhões em produtos agrícolas para o exterior. A diferença entre os dois estados se reduz quando se compara o valor da produção: o Imea projeta cerca de R$ 199 bilhões para Mato Grosso, enquanto São Paulo registrou R$ 174,6 bilhões em 2025, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA/APTA).
O ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Roberto Rodrigues apoiou a visão de Melo Filho, chamando a atuação do governo de “estratégia integrada” que abranja logística, renda para o campo, seguro rural, acordos comerciais, tecnologia e sustentabilidade.
O estado paulista conta com mais de 20 cadeias do agronegócio com movimentação superior a R$ 1 bilhão por ano, incluindo cana-de-açúcar (R$ 55,2B), carne bovina (R$ 22,7B), laranja (R$ 19,7B), frango (R$ 13,7B), café (R$ 9,6B) e soja (R$ 8,9B). Essa composição reduz a dependência de uma única atividade, conferindo maior resiliência ao setor.
Políticas de apoio e financiamento
Na reunião, Melo Filho comparou as políticas agrícolas dos governos federal e paulista. Ele apontou que a União deixou de repassar parte dos recursos previstos para o seguro rural e aumentou a tributação sobre insumos agrícolas, enquanto o estado investiu R$ 1,4 bilhão em programas próprios até 2025. Dentre esses recursos, R$ 1,2 bilhão foram destinados ao Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (FEAP), beneficiando cerca de 33 mil produtores; R$ 390 milhões foram aplicados na subvenção ao seguro rural, com 52.641 apólices; e R$ 180 milhões foram destinados ao programa Pró-Trator.
São Paulo também reduziu a carga
