Em apenas um dia, cerca de 35 mil pintinhos machos foram abatidos em um grande incubatório localizado na Região Sul do país. A descoberta foi feita por uma investigação inédita da organização Mercy For Animals (MFA), que documentou a prática de trituração de pintinhos vivos.
A investigação revelou que os machos foram triturados ainda nas primeiras 24 horas de vida, em máquinas industriais chamadas maceradores, equipadas com lâminas rotativas de alta velocidade.
A MFA alerta que esses equipamentos nem sempre provocam a morte imediata, prolongando o sofrimento dos animais que, por não produzirem ovos e não apresentarem características genéticas ideais para a produção de carne, são considerados economicamente inviáveis.
Vanessa Garbini, vice‑presidente de Relações Institucionais e Governamentais da Mercy For Animals, destaca que a investigação evidencia uma prática estrutural da cadeia de produção de ovos no Brasil.
“A maioria das pessoas desconhece que, por trás do consumo de ovos, existe uma realidade terrível, na qual animais frágeis e sensíveis são mortos de forma brutal. Esse tema precisa ser debatido, inclusive porque a nossa Constituição Federal proíbe a crueldade contra animais. Já existem alternativas para reduzir esse sofrimento, como a sexagem in ovo”, afirma Garbini.
Cerca de metade dos pintinhos que nascem são machos, e isso também ocorria no incubatório investigado. Além disso, fêmeas consideradas inadequadas para a produção de ovos, por apresentarem deformidades ou anomalias, ou que excediam a demanda diária das granjas, também eram descartadas no mesmo processo.
Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mais de 85 milhões de pintinhos machos são descartados por ano no Brasil. Na indústria de ovos, os pintinhos são separados por sexo logo após o nascimento: as fêmeas são direcionadas às granjas de postura, enquanto os machos são descartados por não serem considerados economicamente viáveis para a produção de ovos.
Alternativas ao descarte de pintinhos machos
Países como Alemanha, França e Itália vêm adotando medidas para eliminar o descarte de pintinhos machos a partir da sexagem in ovo. A tecnologia identifica o sexo da ave ainda durante o período de incubação, permitindo que os ovos com embriões machos deixem de ser incubados, evitando assim o nascimento dos pintinhos que seriam mortos.
Garbini ressalta que a tecnologia para evitar o descarte de pintinhos machos ainda está em estágio inicial no Brasil e que o tema está no radar de regulamentação pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
“No Brasil, essa tecnologia ainda se encontra em estágio inicial e está restrita a iniciativas isoladas. Mas grandes empresas já vêm discutindo a sua adoção, porque reconhecem a importância desse tema. E o assunto também já está sendo pautado no âmbito do Governo Federal. Ele já está na agenda de regulamentação do Ministério da Agricultura e Pecuária”, destaca.
Uma pesquisa realizada pela Ipsos, em parceria com a Mercy For Animals, aponta que 83% dos brasileiros se preocupam com o bem‑estar dos animais na indústria de ovos. Um estudo encomendado pela Innovate Animal Ag no Brasil mostrou que 73% dos respondentes sentem desconforto com o abate de pintinhos machos logo após a eclosão, e 76% concordam que a indústria de ovos deve encontrar uma alternativa à prática.
Regulamentação
No Brasil, a Constituição Federal proíbe a crueldade contra animais, sem fazer distinção entre espécies. Embora ainda não exista lei federal específica sobre o descarte de pintinhos machos, métodos que causem sofrimento podem ser analisados à luz dessa vedação. O descarte cruel e rotineiro de pintinhos no país já recebeu atenção do Congresso Nacional, onde tramitam dois projetos de lei sobre o tema, o PL 783/2024 e o PL 3034/2026.
A MFA destaca que o desconhecimento das pessoas sobre a prática de trituração de pintinhos machos vivos pela indústria de ovos é um dos principais obstáculos para a adoção da sexagem in ovo em larga escala no Brasil, o que motivou a divulgação dos resultados da investigação. “Por isso, para que o país possa avançar no tema, é importante que toda a sociedade tenha conhecimento sobre a prática de trituração de pintinhos”, pontua Garbini.
Para acessar a investigação na íntegra, acesse: salvepintinhos.com.br
