O cenário do segundo turno
Com a apuração concluída, o senador Flávio Bolsonaro (PL) liderou o primeiro turno, alcançando 47,03% dos votos válidos, correspondentes a 56.102.126 votos. O presidente Lula (PT) ficou em segundo com 45,16%, totalizando 53.866.947 votos. A diferença de 1,87 ponto percentual equivale a pouco mais de 2,2 milhões de votos, um número que já demonstra a estreita disputa que se desenrolará no dia 25 de outubro.
Flávio dominou a maioria dos estados do Norte, Sul, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto Lula venceu em todos os estados do Nordeste e também entre os eleitores que votaram no exterior. A divisão regional evidencia as polarizações ideológicas que marcaram a campanha.
Lula e a reavaliação estratégica
Após o resultado que a própria campanha considerou abaixo do esperado, membros do PT convocaram uma reunião em Brasília na segunda-feira (5) para discutir um “recall” da estratégia adotada no primeiro turno. O objetivo, segundo o cientista político Leandro Gabiati, é transformar o segundo turno em uma disputa plebiscitária, aumentando a rejeição contra Flávio.
As mudanças em pauta incluem uma linguagem mais direta e simplificada, focada em temas do cotidiano do eleitor, como saúde, educação e segurança, ao invés de questões mais distantes como minerais críticos. A campanha também pretende integrar profissionais de estados onde o PT teve desempenho positivo, como Ceará e Piauí, onde governadores do partido foram reeleitos.
Internamente, há divergências quanto ao tom da comunicação, especialmente entre o presidente do PT, Edinho Silva, e o ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação. A participação de Lula em debates será ampliada, pois a equipe acredita que o confronto direto pode reverter a diferença de votos.
Um ponto controverso é a defesa da proibição das bets feita por Lula na reta final do primeiro turno. Embora tenha sido visto como um ponto fora da curva que pode ter perdido votos, a posição foi mantida por convicção. Bruno Rizzi, da Fatto Inteligência Política, destaca que a maior ameaça ao presidente é a abstenção, que tende a envolver eleitores de classes mais baixas e regiões remotas, grupos historicamente favoráveis ao PT.
Flávio e a consolidação de apoio
Na tarde da segunda-feira (5), a cúpula do PL se reuniu para definir funções e o tom da campanha de Flávio. No primeiro turno, o senador dividiu a campanha em quatro frentes, com o senador e coordenador-geral Rogério Marinho (PL-RN), a coordenadora de economia Daniella Marques e o candidato a vice, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL). A estratégia será mantida, com a possibilidade de ampliar a participação do empresário e influenciador Pablo Marçal.
Flávio também convocou uma reunião de emergência em Brasília com o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para discutir a articulação política da oposição e unificar a base conservadora. Entre os apoiadores, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) e o ex-presidente Michel Temer (MDB) já declararam apoio. Romeu Zema (Novo) reafirmou a oposição ao petismo, enquanto Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) permaneceram neutros.
O impacto dos votos de candidatos derrotados
A margem de 2,2 milhões de votos entre os dois candidatos é menor do que a soma das votações de Cury, Renan e Caiado no primeiro turno, que totalizaram mais de 8,7 milhões de votos. Contudo, especialistas afirmam que declarações de apoio de candidatos derrotados têm efeito simbólico, não mecânico, sobre o resultado final. O apoio de Simone Tebet em 2022, por exemplo, não garantiu a migração automática de votos para o campo de centro-esquerda.
Para Lula, a principal via de crescimento está na redução da abstenção, que historicamente se mantém ou aumenta do primeiro para o segundo turno. A campanha precisa converter os 33 milhões de eleitores que se abstiveram e os quase 6 milhões de votos em branco ou nulos em votos válidos.
O histórico eleitoral e o que pode acontecer
Desde 1989, em todas as eleições presidenciais com segundo turno, o candidato que liderou a primeira fase terminou vencedor. Esse padrão favorece Flávio, mas as campanhas reconhecem que a margem apertada pode alterar o resultado. A disputa entre os dois candidatos será decisiva, e a forma como cada um mobiliza suas bases e converte a abstenção poderá definir o futuro da República.
